O Drugs to Watch 2025, relatório anual da Clarivate, identifica 11 medicamentos com potencial de ultrapassar US$1 bilhão em vendas até 2030 ou capazes de redefinir o padrão de cuidado em áreas terapêuticas de alta complexidade. Embora seja um documento técnico, suas conclusões deixam claro um movimento mais amplo: as tendências farmacêuticas dos próximos anos não se limitam a moléculas isoladas, mas à construção de ecossistemas clínicos que integram diagnósticos moleculares, inteligência artificial, dados do mundo real, diversidade em ensaios e novas formas de medir valor em saúde.
A publicação mostra que 2025 inaugura uma fase de transição estrutural, em que terapias para doenças metabólicas, câncer, dermatite atópica, hemoglobinopatias e infecções respiratórias avançam de maneira coordenada com novos modelos regulatórios e produtivos. E, enquanto países da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia caminham para aprovações aceleradas, o Brasil acompanha por meio de processos de incorporação — como ANVISA, CONITEC e ANS — que costumam exigir avaliação técnica detalhada ao longo de alguns anos.
A seguir, apresentamos os principais pontos que moldarão a prática clínica até o fim da década.

Metabólicas: a consolidação de um ecossistema terapêutico que vai além do controle glicêmico
As doenças metabólicas concentram alguns dos avanços mais expressivos da lista de 2025. Entre eles, destaca-se CagriSema, combinação de semaglutida com o análogo de amilina cagrilintida, que em estudos de fase 2 promoveu redução de 15,6% no peso corporal em pessoas com diabetes tipo 2. A performance robusta coloca essa formulação entre as terapias mais promissoras já testadas para obesidade. A previsão do relatório é que os primeiros lançamentos internacionais ocorram a partir de 2026, inicialmente para obesidade e, na sequência, para diabetes.
Outro marco é AWIQLI, a primeira insulina basal de administração semanal aprovada na União Europeia, no Japão e na China. A simplificação de sete aplicações por semana para apenas uma dose tem potencial para melhorar adesão, especialmente em pacientes que enfrentam barreiras práticas ou psicológicas no tratamento intensivo com múltiplas injeções. Entretanto, a Clarivate ressalta a necessidade de dados do mundo real para monitorar riscos como hipoglicemia e para definir perfis ideais de uso.
O relatório evidencia que a farmacologia metabólica está migrando para uma lógica de plataforma: agonistas de incretinas, insulinas de última geração, redução de risco cardiovascular e renal, softwares de acompanhamento e dispositivos vestíveis operam de forma integrada. Essa convergência projeta um mercado que pode chegar à casa dos US$ 100 bilhões até 2030, impulsionado por eficácia, conveniência e evidências acumuladas.
Impacto prático
Para profissionais de saúde, a chegada dessa próxima onda terapêutica amplia a possibilidade de personalizar tratamentos e intervir mais cedo no risco cardiometabólico. Para pacientes, os efeitos podem incluir maior facilidade de adesão, melhor controle glicêmico e reduções mais consistentes de peso, com reflexos em complicações crônicas.
Orientação para o usuário
- CagriSema ainda está em fase 3, sem previsão de aprovação em 2025.
- AWIQLI aguarda avaliação no Brasil, e o acesso dependerá de registro e posterior incorporação.
Devido à popularização dos agonistas de GLP-1, cresce o risco de falsificações; a compra deve ser feita somente em farmácias regulares e com prescrição especializada.
Oncologia de precisão: terapias de alta especificidade chegam a tumores difíceis
A área de oncologia reúne algumas das terapias mais tecnicamente sofisticadas do relatório. Um dos destaques é vepdegestrant, primeiro PROTAC em fase 3 voltado para degradar o receptor de estrogênio em câncer de mama avançado. Em vez de apenas bloquear a ação desse receptor, a molécula o marca para destruição, o que pode superar mecanismos de resistência comuns aos tratamentos hormonais tradicionais.
Outro ponto central é IMDELLTRA, anticorpo biespecífico (BiTE) que aproxima células T das células tumorais em câncer de pulmão de pequenas células — um dos tipos mais agressivos e com menos alternativas terapêuticas. Essa abordagem direciona a ação do sistema imune com precisão, oferecendo novos caminhos para uma população com prognóstico historicamente limitado.
Além disso, o relatório reforça o avanço dos radioteranósticos, que unem diagnóstico e terapia por meio de radionuclídeos capazes de identificar e atacar tumores no mesmo processo. A tecnologia se destaca especialmente para tumores neuroendócrinos e câncer de próstata metastático, e deve ganhar novas aplicações nos próximos anos.
Impacto prático
Essas terapias representam mais opções em cenários clínicos desafiadores, com possibilidade de ampliar sobrevida e controlar tumores de difícil manejo. Porém, exigem estruturas altamente especializadas e manejo rigoroso de efeitos adversos, como tempestade de citocinas ou neurotoxicidade.
Orientação para o usuário
Testes moleculares se tornam cada vez mais fundamentais para determinar elegibilidade às terapias-alvo. O paciente deve evitar promessas de “cura garantida” e buscar avaliação em centros especializados em oncologia de precisão.
RNAi e edição gênica: de promessa a prática clínica, com impacto crescente em doenças raras
O relatório destaca também avanços em plataformas genéticas. Fitusiran, terapia de interferência por RNA (RNAi) para hemofilia, reduz a necessidade de infusões frequentes ao diminuir a produção de antitrombina. Já CASGEVY, aprovada em 2024, se tornou a primeira terapia de edição gênica para anemia falciforme e beta-talassemia, marcando uma inflexão histórica na abordagem de hemoglobinopatias.
Embora o impacto imediato ainda seja restrito a grupos pequenos e centros altamente especializados, esses avanços abrem caminho para aplicações mais amplas. O relatório recorda que todas as 13 moléculas destacadas na edição anterior foram aprovadas, reforçando a robustez dos pipelines de terapias avançadas.
Impacto prático
Para pessoas com doenças raras, a transição para terapias com efeito potencialmente curativo é significativa. Para sistemas de saúde, representa um desafio de infraestrutura, custos e regulamentação, mas também uma oportunidade de reorganizar o cuidado baseado em resultados.
Orientação para o usuário
São terapias de complexidade muito elevada, disponíveis apenas em centros especializados e ainda sem previsão de aplicação ampla no Brasil.
Vacinas de mRNA e imunologia dermatológica: expansão para além da pandemia
Outro movimento importante é a consolidação das vacinas de mRNA como ferramentas para doenças respiratórias. mRESVIA, primeira vacina de mRNA contra o vírus sincicial respiratório (RSV) aprovada para adultos, demonstra eficácia relevante em idosos, especialmente na prevenção de doença de vias aéreas inferiores.
Na dermatologia, EBGLYSS, anticorpo monoclonal anti-IL-13, surge como alternativa ao dupilumabe no tratamento de dermatite atópica moderada a grave, com regime de manutenção mensal e perfil de segurança consistente. O crescimento dos biológicos reforça uma transição para terapias mais direcionadas e de maior controle inflamatório.
Impacto prático
Vacinas respiratórias devem ganhar espaço no calendário adulto, enquanto biológicos ampliam opções para doenças crônicas inflamatórias com impacto importante na qualidade de vida.
Orientação para o usuário
Biológicos são anticorpos produzidos em laboratório, indicados apenas quando tratamentos convencionais não são suficientes. No Brasil, dependem de incorporação por planos de saúde ou serviços especializados do SUS.

Além da molécula: diversidade, dados do mundo real e acesso moldam a próxima década
Por fim, o relatório reforça que a inovação farmacêutica depende cada vez mais de fatores extramoleculares: diversidade em ensaios clínicos, uso de dados do mundo real para decisões regulatórias, novos modelos de avaliação de valor e cadeias de suprimentos capazes de sustentar lançamentos globais simultâneos.
No Brasil, isso significa processos de incorporação que envolvem ANVISA, CONITEC e ANS, além de negociações de preço, tecnologias de monitoramento e diretrizes clínicas atualizadas.
Orientação para o usuário
Para navegar esse cenário com segurança, o paciente deve consultar:
- ANVISA, para registros e alertas sanitários
- CONITEC e ANS, para informações sobre acesso
- Sociedades médicas, para diretrizes atualizadas
- Farmácias licenciadas, para evitar falsificação de medicamentos
- Profissionais de saúde, para avaliação individualizada
Referência
Clarivate. Drugs to Watch 2025. Disponível em: https://clarivate.com/drugs-to-watch/. Acesso em: 28/11/2025.