A campanha Janeiro Roxo reforça, todos os anos, a importância de ampliar a conscientização sobre a hanseníase — uma doença milenar, totalmente tratável, mas ainda cercada de desinformação e estigma. O objetivo do movimento é incentivar o diagnóstico precoce, diminuir incapacidades físicas e combater preconceitos que ainda afastam muitas pessoas do cuidado adequado.
Mesmo com avanços no controle, a hanseníase segue como um dos maiores desafios de saúde pública no Brasil. Em 2024, o país registrou 22.129 novos casos, uma leve queda em relação ao ano anterior, mas que ainda representa a segunda maior incidência mundial. A distribuição da doença permanece desigual: Norte, Nordeste e Centro-Oeste concentram a maioria dos diagnósticos, refletindo vulnerabilidades sociais, dificuldades de acesso à saúde e desigualdades históricas.
Outro dado preocupante é a persistência da transmissão ativa entre crianças: 921 novos casos em menores de 15 anos foram registrados em 2024, indicando que a cadeia de infecção permanece ativa em muitas regiões. Esse cenário reforça a necessidade de diagnóstico precoce, vigilância ativa e ampliação das políticas de informação e prevenção.
A hanseníase é uma doença tratável e com cura, mas ainda carrega forte estigma social. O termo “lepra”, historicamente associado à exclusão e discriminação, foi abandonado por profissionais de saúde em respeito aos pacientes e para promover uma abordagem mais humana. Entender seus sinais, suas formas de transmissão e os cuidados necessários é fundamental para reduzir barreiras e estimular que mais pessoas busquem atendimento.
O que é a hanseníase?
A hanseníase é uma infecção crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae, também chamada bacilo de Hansen. O microrganismo tem crescimento lento e afeta principalmente a pele e os nervos periféricos, podendo comprometer também olhos e mucosas. Por atacar o sistema nervoso, a doença pode provocar perda de sensibilidade, alteração da força muscular e, se não tratada, levar a incapacidades físicas permanentes.
O período de incubação costuma variar de 1 a 5 anos, mas pode chegar a mais de uma década, o que dificulta identificar quando ocorreu a infecção. Essa característica favorece a transmissão silenciosa e torna essencial a avaliação médica diante de sinais suspeitos.
A gravidade da hanseníase está muito associada ao diagnóstico tardio. Em 2024, 2.236 pessoas foram diagnosticadas já com grau 2 de incapacidade, a forma mais grave, o que evidencia que muitas pessoas chegam ao atendimento apenas quando os sintomas já estão avançados. Além disso, a doença guarda relação direta com vulnerabilidade social: moradores de áreas periféricas, populações negras e pardas, pessoas com baixa escolaridade e trabalhadores com menor acesso aos serviços de saúde costumam ser mais afetados.
Como ocorre a transmissão da hanseníase?
A hanseníase é transmitida principalmente por gotículas respiratórias, liberadas por meio de fala, tosse ou espirro de pessoas infectadas sem tratamento. Para que ocorra o contágio, é necessário contato próximo e prolongado — o que significa convivência frequente dentro de casa, no trabalho ou em ambientes fechados.
É importante reforçar que a convivência casual não transmite a doença. Aperto de mão, abraço, uso compartilhado de objetos ou contato com a pele do paciente não representam risco. Isso ajuda a combater o estigma e evita afastamentos desnecessários dentro da família e da comunidade.

A doença se apresenta em duas formas principais:
- Paucibacilar: baixa carga de bactérias e menor risco de transmissão.
- Multibacilar: alta carga bacilar, respondendo por mais de 80% dos novos casos em 2024, e considerada a principal forma transmissora.
Um ponto importante é que a transmissibilidade cessa poucos dias após o início do tratamento, o que reforça a importância do diagnóstico precoce e da adesão ao esquema medicamentoso. Boletins recentes também mostram aumento relativo de casos em idosos e transmissão continuada entre crianças — sinais de que a cadeia de infecção não foi completamente interrompida.
Principais sinais e sintomas da hanseníase
A hanseníase costuma se manifestar inicialmente por manchas claras, avermelhadas ou escuras, geralmente associadas à perda de sensibilidade. A pessoa pode deixar de sentir toque, dor, temperatura ou até mesmo queimaduras na região afetada. Essa alteração ocorre porque o bacilo compromete os nervos periféricos.
Entre os sintomas mais frequentes estão:
- dormência;
- formigamentos persistentes;
- perda de força nas mãos e nos pés;
- dificuldade de segurar objetos;
- redução da transpiração nas áreas afetadas;
- perda de pelos;
- espessamento de nervos.
Nos casos mais avançados, podem surgir deformidades, retração de dedos, dificuldade para fechar os olhos e lesões mais dolorosas. O aumento recente de diagnósticos com incapacidades físicas demonstra que muitas pessoas ainda chegam tardiamente aos serviços de saúde, reforçando a importância do reconhecimento dos sinais iniciais.
Como é feito o diagnóstico?
A detecção precoce depende tanto da atenção do próprio paciente quanto do olhar clínico do profissional de saúde. Alterações de sensibilidade em manchas ou áreas do corpo devem sempre motivar uma avaliação médica.
O diagnóstico é feito a partir de:
- anamnese detalhada, com investigação de contatos e sintomas;
- exame dermatoneurológico, incluindo testes de sensibilidade e avaliação motora.
Exames complementares podem ser solicitados, como:
- baciloscopia, que pesquisa o bacilo diretamente na pele e é o padrão ouro;
- PCR molecular, mais sensível em casos com poucas lesões;
- teste sorológico rápido, disponível no SUS, com resultado em minutos.
O diagnóstico em crianças exige atenção especial, dado o aumento de casos nessa faixa etária. Já para pessoas idosas, a hanseníase pode ser confundida com outras neuropatias, e por isso a avaliação deve ser cuidadosa.
A investigação de contatos próximos é uma das estratégias mais importantes para reduzir a transmissão. Embora o número de pessoas examinadas tenha aumentado, essa cobertura ainda varia muito entre regiões do país.

Hanseníase tem cura? Como é o tratamento?
A hanseníase tem cura, e todo o tratamento é gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O esquema padrão é realizado com a Poliquimioterapia (PQT), uma combinação de rifampicina, clofazimina e dapsona. O tempo de tratamento depende da forma clínica:
- Cerca de 6 meses para a forma paucibacilar;
- Cerca de 12 meses para a multibacilar.
Os medicamentos são seguros, inclusive para gestantes e lactantes, embora a rifampicina possa reduzir a eficácia de alguns anticoncepcionais.
A transmissão é interrompida rapidamente após o início das doses, mas a adesão ao acompanhamento é essencial, especialmente diante das taxas de recidiva, que chegaram a 4,7% em 2023, mostrando tendência de crescimento.
Em casos graves, existem centros de referência capacitados para atender complicações, orientar reabilitação física e apoiar a reinserção social do paciente — etapa fundamental para reduzir estigmas e garantir autonomia.
Como prevenir a hanseníase?
A principal forma de prevenção continua sendo o diagnóstico precoce. Identificar e tratar rapidamente evita incapacidades e reduz a transmissão.
A avaliação dos contatos de casos confirmados é outra medida essencial. A vacina BCG, embora não seja específica contra a hanseníase, oferece proteção parcial e é recomendada para contatos próximos de pessoas recém-diagnosticadas.
Ações educativas em escolas, comunidades prioritárias e centros de atenção básica ajudam a reduzir estigmas e estimulam a busca por atendimento. Políticas de inclusão, combate à pobreza e acesso à saúde também são fundamentais para conter a doença, já que ela está profundamente associada às desigualdades sociais.
Referências
Sociedade Brasileira de Dermatologia. Hanseníase. Disponível em: https://www.sbd.org.br/doencas/2350-2/. Acesso em: 28/11/2025
Ministério da Saúde. Hanseníase (PCDT). Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hanseniase/publicacoes/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-da-hanseniase-2022/view. Acesso em: 28/11/2025.
Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico de Hanseníase 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/especiais/2022/boletim-epidemiologico-de-hanseniase-_-25-01-2022.pdf. Acesso em: 28/11/2025.
WHO. Global leprosy (Hansen disease) update, 2022: new paradigm – control to elimination. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/who-wer9837-409-430. Acesso em: 28/11/2025.
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