Portal de Saúde | Dr. Fisiologia

Perimenopausa em 2025: sintomas, saúde mental e novas diretrizes

A perimenopausa continua sendo uma das transições biológicas mais marcantes da vida da mulher — e, paradoxalmente, uma das mais negligenciadas pela saúde pública, pela sociedade e, por vezes, pela própria medicina. Embora milhões de brasileiras vivam hoje essa fase, muitas enfrentam sintomas intensos em silêncio, sem diagnóstico ou acolhimento. Dados recentes mostram que, apesar dos cerca de 30 milhões de mulheres na faixa etária do climatério, menos de 300 mil receberam um diagnóstico formal pelo SUS, revelando a invisibilidade estrutural dessa etapa.

Em 2025, porém, novas evidências científicas, diretrizes internacionais e atualizações brasileiras oferecem um quadro mais nítido sobre sintomas, saúde mental, riscos e benefícios da terapia hormonal, além da necessidade urgente de incorporar a perimenopausa à atenção primária. A transição menopausal passa a ser reconhecida não como “condição opcional”, mas como questão de saúde pública — especialmente em um país onde a desigualdade marca profundamente o acesso à saúde, a qualidade da informação e a autonomia das mulheres.

O que é perimenopausa hoje: definição clínica e duração

Clinicamente, a perimenopausa é o período que começa quando o ciclo menstrual se torna irregular — primeiro com encurtamentos, depois com longas pausas — e se estende até cerca de um ano após a última menstruação. A menopausa é apenas o ponto final desse percurso. A diretriz europeia reforça que o diagnóstico é essencialmente clínico, fundamentado no padrão menstrual e no conjunto de sintomas. Exames hormonais como FSH e estradiol variam demais nessa fase e não devem ser usados isoladamente para excluir ou afirmar o diagnóstico.

A duração média da perimenopausa situa-se entre 5 e 10 anos. Considerando que mulheres brasileiras vivem cerca de 78 a 80 anos, isso significa que um terço da vida adulta é atravessado pela queda progressiva da função ovariana. Essa é a base fisiológica para entender por que a transição menopausal deixou de ser vista como evento pontual e passou a ser tratada como fase prolongada com impacto sistêmico: metabolismo, massa óssea, tônus muscular, função cardiovascular, cognição, humor e sexualidade são influenciados de maneira integrada e cumulativa.

Os dados brasileiros mostram o desafio adicional: a fase chega acompanhada de desigualdade. Mulheres periféricas, negras, indígenas e ribeirinhas costumam ter menos acesso a diagnóstico, informação, exames e terapias. Para elas, a perimenopausa muitas vezes se mistura com sobrecarga laboral, insegurança alimentar, dupla jornada e ausência de suporte emocional, ampliando impactos biopsicossociais.

Sintomas e prevalência: o que os estudos de 2025 revelam

O panorama de sintomas ganhou maior detalhamento com o estudo publicado em 2025 na npj Women’s Health. A pesquisa avaliou 4.432 mulheres adultas, a partir dos 30 anos, em um estudo transversal que aplicou a Menopause Rating Scale (MRS) — um instrumento clínico validado que analisa sintomas vasomotores, psíquicos, somáticos e urogenitais. Um achado marcante foi a alta prevalência de sintomas moderados a graves mesmo entre mulheres de 30 a 35 anos, faixa etária raramente associada à perimenopausa na prática clínica e no imaginário social.

Entre os sintomas que mais discriminam a transição se destacam:

• Irregularidade menstrual e amenorreias intermitentes com pausas superiores a 60 dias;
• Ondas de calor e sudorese noturna — que se intensificam ao avançar da transição;
• Secura vaginal, dor na relação sexual e sintomas urinários;
• Palpitações benignas, ansiedade física e sensação de “sobrecarga corporal”;
• Distúrbios do sono, lapsos de memória e irritabilidade.

O AMY, um estudo de base populacional conduzido com mulheres australianas de meia-idade, explorou não apenas prevalência, mas também severidade de sintomas ao longo das etapas do STRAW+10 (pré-menopausa, peri precoce, peri tardia e pós-menopausa). Os autores observaram aumento de quase cinco vezes na prevalência de ondas de calor entre a pré-menopausa e a perimenopausa tardia. Já a secura vaginal e os sintomas urinários mostraram ser marcadores consistentes e progressivos da deficiência estrogênica.

Apesar da alta carga de sintomas, o estudo npj revelou que a procura por cuidado é baixa. Muitas mulheres não buscam atendimento por acreditarem que os sintomas são “normais” ou inevitáveis, outras por não reconhecerem a relação entre irregularidade menstrual e alterações sistêmicas. E há, ainda, o fator relacional: experiências negativas prévias — como minimização das queixas — reduzem a confiança no sistema de saúde.

Saúde mental na perimenopausa: o que mudou em 2025

O campo da saúde mental é, talvez, onde mais se avançou em compreensão nos últimos dois anos. A série especial do The Lancet argumenta que a transição menopausal deve ser vista como “janela de vulnerabilidade” para sintomas depressivos e ansiosos, especialmente em mulheres com histórico prévio de transtorno psiquiátrico. Não se trata de afirmar determinismo hormonal, mas de reconhecer que oscilações intensas de estradiol e progesterona modulam circuitos de humor e sono, tornando algumas mulheres mais suscetíveis.

Esse conceito foi reforçado por um extenso estudo financiado pelo European Research Council, uma coorte com mais de 128 mil mulheres acompanhadas em bases de dados de saúde e registros diagnósticos. O estudo identificou aumento relativo de 112% na incidência de episódios de mania e cerca de 30% em depressão maior na janela de quatro anos ao redor da última menstruação. Os riscos absolutos permanecem baixos, mas a diferença entre mulheres com e sem vulnerabilidade psiquiátrica se amplia significativamente durante a transição.

Em termos simples: nem toda mulher terá depressão ou ansiedade na perimenopausa, mas para quem já tem predisposição — genética, emocional ou social — a fase funciona como gatilho biológico somado aos estressores de vida. Fatores como insônia por ondas de calor, racismo estrutural, violência doméstica, sobrecarga materna ou exaustão laboral elevam ainda mais a vulnerabilidade. Por isso, o rastreio ativo de humor, incluindo ideação suicida, é recomendado tanto por diretrizes internacionais quanto pela literatura recente.

Terapia hormonal: riscos, janela de oportunidade e para quem faz sentido

A terapia hormonal (TH) tem sido reavaliada sob uma lente mais equilibrada e baseada em novas evidências. A diretriz europeia de 2025 destaca que o melhor perfil risco-benefício ocorre quando o início da TH se dá dentro da “janela de oportunidade”: aproximadamente na transição menopausal ou até dez anos após a última menstruação. Esse período está associado a menores riscos cardiovasculares e melhor resposta clínica, desde que respeitadas contraindicações, como história pessoal de câncer de mama, trombofilias e doença cardiovascular estabelecida.

Um comunicado de 2025 da The Menopause Society reforçou que iniciar estrogênio ainda na perimenopausa pode melhorar ondas de calor, sono, função sexual, lubrificação vaginal e bem-estar geral, além de contribuir para proteção óssea. Um grande estudo observacional baseado em mais de 100 milhões de registros administrativos mostrou que, em mulheres adequadamente selecionadas, iniciar TH nessa fase não elevou de forma significativa o risco de câncer de mama, infarto ou AVC. Por ser estudo observacional, há vieses de prescrição, mas ainda assim o volume de dados fortalece a segurança relativa.

Para profissionais, a nuance é essencial: o risco absoluto permanece baixo em mulheres jovens, não fumantes, sem comorbidades cardiovasculares e sem história pessoal de câncer de mama. O foco desloca-se do medo generalizado para a seleção individualizada e informada.

Além disso, terapias não hormonais ganharam espaço, especialmente para mulheres com contraindicações: antidepressivos ISRS/SNRI (como venlafaxina), gabapentinoides e antagonistas do receptor de neurocinina, como fezolinetant (onde disponível). Essas abordagens ampliam a capacidade terapêutica e reforçam que manejar a perimenopausa não se resume a “usar ou não hormônio”.

Brasil, políticas públicas e impacto econômico

A atualização brasileira da diretriz de menopausa, elaborada pela Fiocruz em 2025, incorporou diversidade territorial, racial e social ao orientar a atenção primária sobre diagnóstico, acolhimento e opções terapêuticas. Esse documento destaca que a perimenopausa precisa entrar nos protocolos de saúde da mulher e de saúde mental, sobretudo pelo peso das desigualdades e pelo impacto cumulativo de sintomas não tratados.

No Congresso, o PL 3.933/2023 busca instituir uma linha de cuidado estruturada no SUS, prevendo exames, medicamentos hormonais e não hormonais, fisioterapia, acompanhamento psicológico e equipes multiprofissionais. Isso aproxima o Brasil de tendências internacionais, onde países começam a incorporar a menopausa em agendas de equidade de gênero e produtividade.

Estudos internacionais estimam que sintomas menopausais não tratados custam mais de US$150 bilhões anuais em perda de produtividade global — por absenteísmo, presenteísmo e abandono precoce do mercado de trabalho. Embora não haja ainda cálculo específico para o Brasil, é razoável considerar que o impacto econômico e social seja expressivo, especialmente entre mulheres chefes de família ou que ocupam funções de alta demanda cognitiva e emocional.

A perimenopausa não é frescura, não é tabu e não é “coisa da cabeça”. É uma fase biológica longa, marcada por oscilações hormonais, maior vulnerabilidade emocional e sintomas que podem ser incapacitantes. Para a mulher, reconhecer essa etapa significa reencontrar linguagem, autonomia e possibilidades terapêuticas. Para o sistema de saúde, é uma oportunidade de prevenir doenças futuras, reduzir desigualdades e promover qualidade de vida.

Referências

Brown L, Hunter MS, Chen R, Crandall CJ, Gordon JL, Mishra GD, Rother V, Joffe H, Hickey M. Promoting good mental health over the menopause transition. The Lancet. 2024 Mar 9;403(10430):969-983. doi: 10.1016/S0140-6736(23)02801-5. Epub 2024 Mar 5. PMID: 38458216.

Cunningham, A.C., Hewings-Martin, Y., Wickham, A.P. et al. Perimenopause symptoms, severity, and healthcare seeking in women in the US. npj Womens Health 3, 12 (2025). https://doi.org/10.1038/s44294-025-00061-3.

Islam RM, Bond M, Ghalebeigi A, Wang Y, Walker-Bone K, Davis SR. Prevalence and severity of symptoms across the menopause transition: cross-sectional findings from the Australian Women’s Midlife Years (AMY) Study. Lancet Diabetes Endocrinol. 2025 Sep;13(9):765-776. doi: 10.1016/S2213-8587(25)00138-X. Epub 2025 Jul 25. Erratum in: Lancet Diabetes Endocrinol. 2025 Oct;13(10):e13. doi: 10.1016/S2213-8587(25)00247-5. PMID: 40720963.

Agência Senado. Mulheres na menopausa. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2024/11/mulheres-na-menopausa-invisibilidade-deixa-tratamento-fora-da-agenda-publica. Acesso em: 28/11/2025.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *