A tirzepatida, comercializada como Mounjaro para diabetes tipo 2 e zepbound para controle de peso, consolidou-se como uma das terapias mais relevantes na área cardiometabólica. É o primeiro agonista duplo de GIP e GLP-1 aprovado para uso clínico, atuando simultaneamente sobre obesidade e diabetes tipo 2, condições que frequentemente coexistem e amplificam o risco de infarto, AVC e doença renal crônica. Estima-se que mais de 1 bilhão de pessoas vivam com obesidade e cerca de 422 milhões com diabetes tipo 2 no mundo, o que torna particularmente urgente o desenvolvimento de terapias que abordem as duas doenças em conjunto.
A tirzepatida se destaca por combinar controle glicêmico robusto com perda de peso que chega a 16–22% em ensaios clínicos de longo prazo, aproximando-se de resultados vistos com cirurgia bariátrica em alguns perfis. Comparada a semaglutida, outro agonista de GLP-1 amplamente utilizado, a tirzepatida ativa dois receptores (GIP + GLP-1) em vez de apenas um, o que se traduz em perda de peso e queda de HbA1c, em média, mais intensas, mantendo um perfil de segurança semelhante. Por isso, vem sendo preferida quando o objetivo é maximizar a redução de peso com forte impacto glicêmico, embora semaglutida continue excelente opção em muitos contextos.

Como funciona o agonista duplo GIP/GLP-1
GLP-1 e GIP são hormônios liberados pelo intestino após as refeições. Eles estimulam a secreção de insulina quando a glicose sobe, reduzem o glucagon, retardam o esvaziamento gástrico e sinalizam para o cérebro que é hora de parar de comer. O GLP-1 ficou famoso por esses efeitos; o GIP, por muitos anos, foi visto como menos relevante, mas hoje se sabe que, em pessoas com diabetes tipo 2, sua via está “adormecida” e pode ser reativada.
A tirzepatida foi desenhada para se ligar aos dois receptores, com alta afinidade pelo GIP e atividade importante em GLP-1. Essa combinação aumenta a produção de insulina dependente da glicose, melhora a sensibilidade à insulina, reduz o glucagon, diminui a ingestão alimentar e favorece a utilização de gordura como fonte de energia. Para o paciente, uma imagem simples ajuda: outros remédios “tiram o pé do acelerador” do apetite; a tirzepatida tira o pé e ainda “puxa o freio”, atuando por duas vias ao mesmo tempo.
Em linguagem prática, o medicamento ajuda o corpo a usar melhor o açúcar, gastar o “estoque” de gordura e sentir menos fome. Mas ele não substitui alimentação adequada, atividade física e acompanhamento multiprofissional: funciona melhor quando está inserido em um plano global de cuidado.
Evidências em obesidade: a série SURMOUNT
Os ensaios SURMOUNT formam a base do uso da tirzepatida na obesidade. No SURMOUNT-1, com pessoas com obesidade sem diabetes, doses de 10 a 15 mg levaram a perdas médias de 16–22% do peso em 72 semanas, enquanto o grupo placebo perdeu apenas 2–3%. Uma proporção significativa atingiu reduções de 20% ou mais, com melhora de pressão arterial, lipídios e marcadores inflamatórios.
O SURMOUNT-2, conduzido em pessoas com obesidade e diabetes tipo 2, mostrou perdas de 14–21% de peso associadas a reduções de cerca de 1,5–2,5 pontos percentuais na HbA1c, confirmando que o efeito em peso se mantém mesmo em contexto de diabetes estabelecido. Já o SURMOUNT-3 testou um cenário muito próximo do ideal clínico: todos passaram primeiro por 12 semanas de intervenção intensiva de estilo de vida e perderam cerca de 7% do peso; em seguida, quem recebeu tirzepatida perdeu, em média, mais 18,4%, enquanto o grupo placebo reganhou parte do peso. Aproximadamente um quarto dos participantes atingiu perda igual ou superior a 25%.
O SURMOUNT-4 explorou o que acontece ao suspender o medicamento. Depois de uma fase em que todos usaram tirzepatida e perderam peso de forma expressiva, metade continuou o tratamento e metade foi trocada para placebo. O grupo que interrompeu teve reganho substancial de peso e piora de parâmetros cardiometabólicos, enquanto quem manteve o uso preservou ou ampliou os ganhos. A mensagem é clara: obesidade responde bem ao tratamento enquanto ele é mantido, assim como hipertensão responde ao uso contínuo de anti-hipertensivos; não se trata de “cura”, mas de controle crônico.
Evidências em diabetes tipo 2 e prevenção
Nos estudos SURPASS, realizados em diferentes cenários de diabetes tipo 2, a tirzepatida apresentou reduções de HbA1c em torno de 1,8–2,4 pontos percentuais, frequentemente superiores às obtidas com insulina glargina ou outros agonistas de GLP-1. Além disso, os pacientes perderam peso, em vez de ganhar, invertendo o padrão historicamente visto com intensificação de insulina. Isso tem impacto direto na adesão e na redução do risco cardiometabólico.
Um aspecto promissor que vem ganhando força é o potencial da tirzepatida na prevenção do diabetes, especialmente em populações com obesidade e pré-diabetes. Em análises de extensão dos ensaios SURMOUNT, indivíduos com pré-diabetes em uso de tirzepatida apresentaram menor progressão para diabetes tipo 2 e maiores taxas de retorno à normoglicemia em comparação com placebo. É cedo para falar em “ prevenção medicamentosa” como política pública ampla, mas os dados sugerem um possível papel em grupos de alto risco, sempre associado as intervenções de estilo de vida.
Segurança: efeitos esperados e sinais de alerta
O perfil de segurança da tirzepatida é dominado por efeitos gastrointestinais. Náuseas ocorrem em cerca de 25–38% dos pacientes, vômitos em 7–12%, diarreia em torno de 23% e constipação em 18–25%, dependendo da dose. Esses sintomas aparecem principalmente nas primeiras semanas ou durante a escalada e tendem a melhorar em aproximadamente 70% dos casos após 4–8 semanas. Um cronograma típico inclui adaptação inicial nas semanas 1–2, pico de desconforto entre semanas 3–4 e melhora gradual até a tolerância estável em torno de 8–12 semanas.
Para o paciente, é útil saber que comer porções menores, evitar refeições muito gordurosas e respeitar o esquema de aumento de dose reduz bastante o incômodo. Cefaleia, fadiga leve e reação no local da injeção também são relatadas, mas raramente exigem suspensão.
Dados de farmacovigilância pós-comercialização mostram padrão semelhante ao de outros agonistas de GLP-1, com alguns sinais de eventos biliares (cálculos, colecistite) e casos de pancreatite que exigem vigilância. Até o momento, estudos de mundo real não detectaram aumento consistente de risco global de câncer ou pancreatite em comparação a outras terapias, mas recomenda-se cautela em pacientes com histórico de pancreatite, carcinoma medular de tireoide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2. Sintomas como dor abdominal intensa e persistente, icterícia ou vômitos repetidos requerem atendimento médico imediato.

Coração e rins: o que ainda está em aberto
Além da perda de peso e do controle glicêmico, a grande questão agora é o impacto da tirzepatida em desfechos cardiovasculares e renais de longo prazo. O estudo SURMOUNT-MMO avalia eventos cardiovasculares maiores (infarto, AVC ou morte cardiovascular) ao longo de cerca de cinco anos, com resultados esperados por volta de 2027. Já o ensaio TREASURE-CKD acompanha pacientes com doença renal crônica, com desfecho primário centrado em progressão para diálise, transplante ou morte por doença renal, com dados previstos para aproximadamente 2026.
Os sinais intermediários são animadores: redução de pressão arterial, melhora de triglicerídeos e HDL, diminuição de gordura hepática e parâmetros renais mais favoráveis. No entanto, apenas os resultados completos desses ensaios dirão se essas melhoras se traduzem em menos infarto, menos AVC, menos diálise e maior sobrevida. Para profissionais, o recado é usar a tirzepatida como forte aliada no controle de fatores de risco, sem antecipar benefícios ainda não demonstrados; para pacientes, é importante entender que o acompanhamento a longo prazo é parte essencial da história.
Como posicionar na prática e quando considerar cada opção
Na prática clínica, tirzepatida é indicada para diabetes tipo 2 com controle inadequado, especialmente quando há obesidade ou risco cardiovascular elevado, e para obesidade (IMC ≥ 30) ou sobrepeso com comorbidades. Em alguns países, também foi aprovada para apneia obstrutiva do sono associada à obesidade. A escolha entre tirzepatida, semaglutida e outros agonistas de GLP-1 depende do cenário: em obesidade grave com diabetes mal controlado, a tirzepatida tende a ser preferida pela maior perda de peso e efeito glicêmico; em sobrepeso leve com diabetes bem controlado, semaglutida ou outras opções podem ser suficientes, considerando custo e acesso; em obesidade sem diabetes, tirzepatida ganha destaque pelo resultado superior em peso.
O acompanhamento costuma ser feito a cada 3–6 meses, avaliando perda de peso, HbA1c, pressão, perfil lipídico, função renal e tolerância. Se, após cerca de 16 semanas em dose próxima da máxima, a resposta em peso for mínima ou os efeitos adversos forem mal suportados, é razoável discutir ajustes, associações ou mudança de terapia. Qualquer interrupção deve ser planejada, pois o reganho de peso e a piora metabólica após suspensão, como demonstrado em SURMOUNT-4, são a regra, não a exceção.
Ética, acesso e comunicação com o paciente
Apesar do potencial clínico, o acesso à tirzepatida ainda é marcado por forte desigualdade. O custo elevado e a cobertura limitada por planos e sistemas públicos fazem com que muitos pacientes de alto risco não consigam utilizar o medicamento, enquanto o uso com finalidade predominantemente estética por pessoas sem indicação formal contribui para escassez.
Nesse contexto, a forma de comunicar o tratamento é crucial. Profissionais precisam deixar claro que a tirzepatida não é “milagre”, nem substitui mudanças de estilo de vida, e sim uma ferramenta potente para controlar uma doença crônica. O paciente deve ser orientado sobre duração provável do uso, possibilidade de reganho após suspensão, necessidade de acompanhamento regular e importância do suporte multiprofissional, incluindo nutrição e, quando necessário, saúde mental.
Em síntese
A tirzepatida representa um avanço importante no manejo integrado de obesidade e diabetes tipo 2, com evidências robustas de perda de peso de 16–22% em estudos de longo prazo e reduções expressivas de HbA1c, muitas vezes superiores às de outras terapias. Seu perfil de segurança é comparável ao de outros agonistas de GLP-1, com efeitos gastrointestinais frequentes, porém previsíveis e manejáveis na maior parte dos casos.
Questões sobre impacto cardiovascular e renal de longo prazo seguem em investigação, com resultados de grandes estudos esperados entre 2026 e 2027. Diante da epidemia global de obesidade e diabetes, o desafio agora é equilibrar uso responsável, acesso equitativo e comunicação transparente com pacientes, reforçando sempre o caráter crônico da doença e o papel insubstituível de mudanças sustentadas de estilo de vida.
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