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Câncer de mama: avanços no diagnóstico e monitoramento

O câncer de mama é o câncer mais incidente entre mulheres no mundo e no Brasil e segue como um dos principais desafios da saúde pública. As estimativas do INCA apontam para cerca de 74 mil novos casos anuais no país até 2025, refletindo um cenário em que a doença continua avançando em número de diagnósticos. Internacionalmente, dados do relatório Breast Cancer Facts & Figures 2024–2025, fundamentado no estudo de Giaquinto et al., mostram aumento de aproximadamente 1% ao ano na incidência entre 2012 e 2021 nos Estados Unidos, com crescimento mais acentuado entre mulheres com menos de 50 anos.

Em contrapartida, a mortalidade vem diminuindo. Entre 1989 e 2022, os EUA observaram queda de 44% nas mortes por câncer de mama, o que representa mais de 517 mil vidas poupadas. Essa redução resulta da combinação entre rastreamento mamográfico, diagnóstico em estágios iniciais e tratamentos cada vez mais efetivos — incluindo terapias-alvo, hormonioterapia e esquemas modernos de quimioterapia.

Entretanto, as desigualdades persistem. Mulheres negras, populações de baixa renda e residentes de regiões remotas enfrentam maior mortalidade, em parte pela menor cobertura de rastreamento e pelo acesso limitado a terapias avançadas. No Brasil, esse cenário se repete, com maior proporção de casos avançados em áreas com infraestrutura limitada. É justamente nesse contexto que os avanços em diagnóstico e monitoramento ganham relevância, sobretudo quando acompanhados de políticas de equidade que garantam acesso amplo e sustentável.

Tecnologias de diagnóstico: da mamografia 3D à inteligência artificial

A mamografia permanece como o principal exame de rastreamento e uma das estratégias mais impactantes para reduzir mortalidade. Contudo, limitações como menor sensibilidade em mamas densas e variabilidade entre avaliadores impulsionaram o desenvolvimento de novas tecnologias. As mais promissoras incluem a tomossíntese (mamografia 3D), a inteligência artificial aplicada às imagens e, no cenário nacional, o tomógrafo de mama por ultrassom (TomUS), criado pela USP Ribeirão Preto.

Essas inovações convergem em um objetivo comum: ampliar a detecção precoce de tumores pequenos, reduzir falsos-positivos, padronizar laudos e democratizar o acesso em regiões que historicamente têm baixa cobertura mamográfica.

Tomossíntese (mamografia 3D)

A tomossíntese representa um avanço importante ao permitir a reconstrução tridimensional da mama, reduzindo a sobreposição de estruturas que podem ocultar lesões na mamografia tradicional. Revisões recentes sintetizadas pela ecancer mostram que a técnica identifica de um a dois tumores adicionais por mil mulheres rastreadas, com redução significativa de diagnósticos em estágios avançados.

Na prática, isso significa mais casos detectados em fase potencialmente curável, uso de cirurgias menos extensas e menor necessidade de tratamentos agressivos. Apesar dos benefícios, a adoção da tomossíntese ainda é limitada no Brasil pela concentração de equipamentos em grandes centros urbanos, reforçando a importância de metodologias complementares mais acessíveis.

Inteligência artificial como segunda leitura

A inteligência artificial emerge como uma das ferramentas mais transformadoras no diagnóstico por imagem. No estudo AI-STREAM, publicado na Nature Communications em 2025, o uso de IA como segunda leitura elevou a taxa de detecção de câncer em 13,8% (5,70 para 5,01 por mil exames), sem aumento relevante na taxa de recall. Ou seja, mais tumores foram identificados, especialmente pequenos e de bom prognóstico, sem que mais mulheres fossem chamadas para exames adicionais.

Outro ponto relevante é o impacto na padronização: radiologistas gerais tiveram melhora ainda maior na detecção quando apoiados pela IA, o que reduz desigualdades de interpretação — um aspecto essencial em regiões com menor disponibilidade de especialistas em mama. Algumas ferramentas já possuem designações especiais da FDA para estratificação individual de risco, antecipando um modelo de rastreamento personalizado.

Ainda assim, é fundamental considerar o risco de vieses. Algoritmos treinados em populações estrangeiras podem apresentar menor acurácia em contextos diferentes, reforçando a necessidade de validações nacionais e calibragem apropriada. A IA complementa o trabalho médico, não substitui, e deve ser incorporada com responsabilidade técnica.

Inovação brasileira: tomógrafo de mama por ultrassom (TomUS)

Entre as contribuições nacionais mais promissoras está o TomUS, desenvolvido pelo GIIMUS da USP Ribeirão Preto. Trata-se de uma tecnologia 100% brasileira — incluindo hardware, software e algoritmos de processamento de imagem — que oferece exame sem compressão, sem radiação e indolor. A paciente deita-se em uma maca com a mama imersa em água morna enquanto um sistema robótico automatizado realiza uma varredura 3D completa, gerando imagens de alta resolução analisadas com apoio de inteligência artificial.

O TomUS tem potencial de impacto significativo no Brasil, uma vez que as imagens podem ser laudadas remotamente via telessaúde, permitindo que regiões com poucos radiologistas ofereçam diagnóstico avançado. Em locais com boa infraestrutura, o equipamento tende a atuar como complemento à mamografia e à tomossíntese; em áreas com poucos mamógrafos, pode funcionar como porta de entrada para o rastreamento. Atualmente em validação clínica no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP, já identificou uma lesão precoce em voluntária durante testes, reforçando seu potencial de utilidade. A iniciativa avança para a criação de uma startup no Supera Parque, com apoio da Fapesp, CNPq e Capes, fortalecendo a soberania tecnológica.

Biópsia líquida e DNA tumoral circulante: monitoramento da resposta ao tratamento

A biópsia líquida baseada em DNA tumoral circulante (ctDNA) surge como uma ferramenta promissora no acompanhamento de pacientes com câncer de mama inicial. O ctDNA funciona como uma espécie de “rastro” liberado pelo tumor na corrente sanguínea e pode ser detectado mesmo antes de alterações visíveis em exames de imagem. Em cenários de quimioterapia neoadjuvante, sua queda precoce está associada à maior probabilidade de resposta patológica completa, quando a cirurgia não encontra mais células tumorais viáveis.

Estudos publicados em 2024 e 2025 mostram que a persistência do ctDNA após a quimioterapia pode indicar maior risco de recidiva, permitindo intervenções mais precoces e personalizadas. No entanto, embora promissora, essa tecnologia ainda não substitui métodos convencionais como a biópsia tecidual ou a mamografia. O ctDNA permanece mais consolidado em centros de pesquisa e de alta complexidade, e sua incorporação rotineira depende de padronização, validação em larga escala e redução de custos.

Fatores que reduziram a mortalidade: o papel dos tratamentos e do rastreamento

Uma análise do National Cancer Institute publicada no JAMA em 2024 demonstra que a queda da mortalidade entre 1975 e 2019 se deve majoritariamente aos avanços terapêuticos e ao rastreamento. Segundo o estudo, 47% da redução decorre de melhorias nos tratamentos iniciais, 29% dos avanços no tratamento metastático e 25% do rastreamento mamográfico.

Os progressos foram particularmente expressivos em tumores hormônio-positivos e HER2-positivos, justamente aqueles com maior número de terapias-alvo disponíveis. A sobrevida mediana em doença metastática passou de 1,9 ano em 2000 para 3,2 anos em 2019, refletindo a evolução dos esquemas sistêmicos. Tumores triplo-negativos, porém, apresentaram ganhos mais modestos, reforçando a urgência de estratégias de inovação específicas.

Desafios e perspectivas: acesso equitativo e estratificação de risco

Apesar dos avanços, a lacuna no acesso ao diagnóstico e tratamento permanece como um dos maiores desafios. No futuro próximo, o rastreamento tende a se tornar mais personalizado — em vez de oferecer o mesmo exame para todas as mulheres no mesmo intervalo, a proposta é ajustar a frequência e o tipo de exame ao risco individual, considerando fatores clínicos, genéticos, densidade mamária e, futuramente, ctDNA.

No Brasil, tecnologias escaláveis e nacionais, como o TomUS, podem ser decisivas para reduzir desigualdades regionais e fortalecer o SUS. Para o público geral, a mensagem fundamental é manter o rastreamento em dia e procurar avaliação médica ao notar qualquer alteração mamária. Para profissionais, acompanhar diretrizes, integrar novas tecnologias e usar a telessaúde de forma estratégica são passos essenciais para transformar avanços científicos em benefício real para as pacientes.

Referências

Caswell-Jin JL, Sun LP, Munoz D, Lu Y, Li Y, Huang H, Hampton JM, Song J, Jayasekera J, Schechter C, Alagoz O, Stout NK, Trentham-Dietz A, Lee SJ, Huang X, Mandelblatt JS, Berry DA, Kurian AW, Plevritis SK. Analysis of Breast Cancer Mortality in the US-1975 to 2019. JAMA. 2024 Jan 16;331(3):233-241. doi: 10.1001/jama.2023.25881. PMID: 38227031; PMCID: PMC10792466.

Giaquinto AN, Sung H, Newman LA, et al. Breast cancer statistics 2024. CA Cancer J Clin. 2024; 74(6): 477-495. doi:10.3322/caac.21863 

Breast Cancer Facts & Figures. American Cancer Society. Disponível em: https://www.cancer.org/research/cancer-facts-statistics/breast-cancer-facts-figures.html. Acesso em: 28/11/2025.

Chang, YW., Ryu, J.K., An, J.K. et al. Artificial intelligence for breast cancer screening in mammography (AI-STREAM): preliminary analysis of a prospective multicenter cohort study. Nat Commun 16, 2248 (2025). https://doi.org/10.1038/s41467-025-57469-3.

Pesquisadores da USP desenvolvem tomógrafo de mama por ultrassom com tecnologia nacional. Jornal da USP. Disponível em: https://jornal.usp.br/campus-ribeirao-preto/pesquisadores-da-usp-desenvolvem-tomografo-de-mama-por-ultrassom-com-tecnologia-nacional/. Acesso em: 28/11/2025.

Tomógrafo de mama por ultrassom desenvolvido na USP promete ampliar o acesso ao diagnóstico precoce do câncer de mama. Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica. Disponível em: https://sbeb.org.br/tomografo-de-mama-por-ultrassom-desenvolvido-na-usp-promete-ampliar-o-acesso-ao-diagnostico-precoce-do-cancer-de-mama/. Acesso em: 28/11/2025.

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