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Ansiedade: quando o sentimento natural se torna doença

Sentir um frio na barriga antes de uma entrevista, as mãos suando em uma apresentação ou o coração acelerando diante de algo novo são reações comuns do corpo humano. A ansiedade, nesses casos, é uma resposta natural e saudável, que ajuda o organismo a se adaptar a situações de risco, novidade ou desafio. Porém, quando essa sensação se torna persistente, exagerada e começa a atrapalhar a rotina, ela deixa de ser um mecanismo de proteção e passa a ser um transtorno mental que exige atenção médica.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas convivem atualmente com algum transtorno de saúde mental, sendo a ansiedade e a depressão os mais prevalentes. A prevalência global de ansiedade aumentou 25% desde a pandemia de covid-19, tornando-se a segunda principal causa de incapacidade a longo prazo no mundo. Apesar da gravidade, apenas 2% dos orçamentos nacionais de saúde são destinados à saúde mental, o que evidencia o subfinanciamento crônico dessa área.

No Brasil, o cenário também é preocupante. Segundo a pesquisa Covitel 2024, cerca de 56 milhões de brasileiros (26,8% da população) apresentaram algum grau de transtorno ansioso, colocando o país na liderança mundial em número de casos. Aproximadamente 45% dos entrevistados relataram sintomas de ansiedade, com maior incidência entre mulheres (55%) e jovens de 18 a 24 anos (65%). Entre janeiro e junho de 2025, o país registrou mais de 81 mil afastamentos do trabalho por transtornos de ansiedade.

Fatores como a insegurança financeira, a instabilidade política e o excesso de estímulos digitais contribuem para o agravamento do problema. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito por meio de mais de 41 mil Unidades Básicas de Saúde (UBS) e cerca de 3.400 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), mas o acesso ainda é desigual e insuficiente diante da demanda crescente.

O que é ansiedade?

A ansiedade não é, por si só, uma doença. O termo descreve uma emoção normal e esperada do ser humano, essencial para a adaptação em situações de alerta, perigo ou risco. Ela mobiliza o organismo a reagir — aumentando os batimentos cardíacos, a atenção e a energia — preparando o corpo para lidar com desafios.

Em níveis moderados e de curta duração, a ansiedade é funcional e adaptativa, podendo até melhorar o desempenho em tarefas importantes. No entanto, quando essa sensação se torna persistente, intensa, sem motivo aparente ou incapacitante, comprometendo a vida social, profissional e pessoal, ela passa a ser considerada transtorno de ansiedade, uma condição reconhecida pelos sistemas médicos internacionais (CID-10, CID-11 e DSM-5).

Os transtornos de ansiedade incluem diferentes apresentações clínicas, como a ansiedade generalizada, o transtorno do pânico, as fobias específicas ou sociais e o transtorno misto ansioso-depressivo. Em comum, todos envolvem medo e preocupação excessivos, que se mantêm mesmo na ausência de perigo real.

Causas e fatores de risco

A ansiedade tem origem multifatorial, ou seja, resulta da combinação de aspectos genéticos, biológicos, psicológicos e sociais.

  • Fatores genéticos: pesquisas indicam que a herança familiar e certas variações genéticas aumentam a predisposição para os transtornos ansiosos.
  • Aspectos psicológicos: traumas emocionais, histórico de perdas, abuso ou estresse crônico estão entre os principais gatilhos.
  • Contexto social e ambiental: excesso de trabalho, pressões financeiras, uso abusivo de tecnologia e instabilidade econômica contribuem para o aumento dos quadros.
  • Fatores biológicos: desequilíbrios em neurotransmissores como serotonina e noradrenalina influenciam diretamente o humor e a regulação emocional.

Após a pandemia de covid-19, os casos aumentaram em todas as faixas etárias. O isolamento social, o medo de adoecer e as mudanças nas rotinas intensificaram os sintomas de ansiedade, especialmente entre crianças, adolescentes e profissionais de saúde.

Além disso, mulheres e jovens adultos são os grupos mais vulneráveis, possivelmente em razão de diferenças hormonais e de maior exposição a sobrecarga emocional e social.

Sinais e sintomas

Os sintomas da ansiedade variam de pessoa para pessoa, mas geralmente envolvem manifestações físicas, cognitivas e emocionais.

Sintomas físicos mais comuns:

  • taquicardia e palpitações;
  • respiração acelerada ou sensação de falta de ar;
  • tremores e sudorese;
  • tontura e cansaço;
  • tensão muscular e dor de cabeça;
  • alterações no apetite e no sono;
  • desconforto gastrointestinal.

Sintomas emocionais e cognitivos:

  • medo e preocupação constantes;
  • dificuldade de concentração;
  • pensamentos catastróficos;
  • irritabilidade e sensação de alerta permanente;
  • sensação de perda de controle.

Esses sintomas tornam-se transtorno quando passam a causar sofrimento significativo e prejuízos nas atividades diárias, como dificuldade de trabalhar, estudar ou se relacionar.

É importante também diferenciar ansiedade de medo. O medo é uma resposta imediata diante de uma ameaça concreta; já a ansiedade é uma antecipação de um perigo futuro, muitas vezes sem causa real. Ambos são mecanismos naturais, mas quando a reação é desproporcional, podem indicar um transtorno.

Diagnóstico

O diagnóstico dos transtornos de ansiedade é clínico e deve ser feito por um psicólogo ou psiquiatra. O profissional avalia a intensidade, a frequência e a duração dos sintomas, bem como os impactos sobre a vida da pessoa.

Durante a avaliação, é fundamental excluir causas fisiológicas, como distúrbios hormonais, uso de medicamentos ou outras doenças. São utilizados critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), que descrevem os diferentes tipos de transtorno e seus critérios de gravidade.

O diagnóstico precoce é essencial para garantir melhores resultados no tratamento e prevenir complicações, como depressão, uso de substâncias e síndromes de esgotamento (burnout).

Tratamento e cuidados

O tratamento da ansiedade é personalizado e deve considerar a causa, a gravidade e o perfil do paciente. Ele envolve três pilares principais:

  • Psicoterapia: a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a abordagem mais eficaz, ajudando o paciente a compreender seus padrões de pensamento e desenvolver estratégias para lidar com a ansiedade.
  • Medicamentos: em alguns casos, o uso de antidepressivos ou ansiolíticos pode ser indicado por um psiquiatra, sempre com acompanhamento profissional.
  • Apoio psicossocial: o suporte familiar e a participação em grupos terapêuticos contribuem para o controle da doença e o fortalecimento emocional.

O SUS oferece atendimento gratuito em saúde mental nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), garantindo acompanhamento multiprofissional.

Além do tratamento clínico, mudanças no estilo de vida são fundamentais para o controle da ansiedade:

  • praticar exercícios físicos regularmente;
  • manter sono de qualidade;
  • reduzir o consumo de cafeína e álcool;
  • equilibrar o tempo em telas e redes sociais;
  • reservar momentos para lazer e relaxamento;
  • adotar técnicas de respiração, meditação ou mindfulness.

Essas medidas complementam o tratamento e ajudam na recuperação do equilíbrio emocional e da qualidade de vida.

Conclusão

A ansiedade é uma emoção natural e necessária à vida, mas, quando se torna exagerada e constante, pode evoluir para uma doença séria. Reconhecer os sinais e buscar ajuda profissional é o primeiro passo para o cuidado com a saúde mental.

Com tratamento adequado, apoio e informação de qualidade, é possível controlar os sintomas e viver com mais equilíbrio e bem-estar.

Referências
Organização Mundial da Saúde (OMS). Dados globais de saúde mental (2025). Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/2-9-2025-mais-um-bilhao-pessoas-vivem-com-condicoes-saude-mental-servicos-precisam​. Acesso em: 29/10/2025.
Ministério da Saúde (Brasil). Saúde Mental em Dados, edição 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-mental/saude-mental-em-dados/saude-mental-em-dados-edicao-no-13-fevereiro-de-2025/view. Acesso em: 29/10/2025
Agência Brasil. Mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais, diz OMS (2025). Disponível em:  https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-09/mais-de-1-bilhao-de-pessoas-vivem-com-transtornos-mentais-diz-oms​. Acesso em: 29/10/2029.
Associação Paulista de Medicina (APM). 45% dos médicos no Brasil sofrem com ao menos um tipo de transtorno mental (2025). Disponível em: https://www.apm.org.br/45-dos-medicos-no-brasil-sofrem-com-ao-menos-um-tipo-de-transtorno. Acesso em: 29/10/2025.
Veja. Brasil ocupa alarmante papel de destaque na atual epidemia global de ansiedade. Disponível em: https://veja.abril.com.br/comportamento/brasil-ocupa-alarmante-papel-de-destaque-na-atual-epidemia-global-de-ansiedade/.  Acesso em: 29/10/2025.

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