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Superbactérias podem superar mortes por câncer até 2050, alerta ONU

A resistência bacteriana já é considerada uma “pandemia silenciosa”. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), infecções causadas por superbactérias — microrganismos que já não respondem aos antibióticos usados no tratamento — podem provocar até 10 milhões de mortes por ano até 2050, superando o número de vítimas do câncer. O impacto não será apenas na saúde. Estima-se que as perdas econômicas ultrapassem US$3,4 trilhões anuais.

Para Rafael Appel, farmacêutico e diretor científico da startup Dr. Fisiologia, o alerta não exige somente inovação científica, mas também um esforço coletivo para aproximar a população do debate. “Estamos diante de um problema global. Se a sociedade não compreender o que significa a resistência bacteriana e como o uso indiscriminado de antibióticos alimenta esse processo, dificilmente conseguiremos mudar esse cenário”, afirma.

O que são superbactérias?

Superbactérias são bactérias comuns que, ao longo do tempo, se tornaram resistentes ao efeito dos antibióticos. Isso acontece principalmente pelo uso incorreto desses medicamentos — como quando são tomados sem prescrição médica, em doses erradas ou por tempo menor que o indicado. “Cada vez que um antibiótico é usado de maneira inadequada, damos chance para que algumas bactérias sobrevivam e se tornem mais fortes. Essas cepas resistentes podem se espalhar e causar infecções muito difíceis de tratar”, explica Appel.

Novas descobertas no combate à resistência

Entre os avanços recentes, cientistas da Universidade de Liverpool anunciaram o Novltex, uma nova classe de antibióticos capaz de atuar contra microrganismos considerados prioritários pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre eles está o Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), que pode causar infecções graves na pele, no sangue e nos pulmões.

Segundo Appel, o potencial da pesquisa é animador. “O Novltex atua em uma estrutura importante da parede celular bacteriana que não sofre mutação. Isso significa que as bactérias não conseguem desenvolver resistência com facilidade, garantindo maior durabilidade ao tratamento. Além disso, pode ser produzido em escala, o que aumenta as chances de chegar efetivamente aos pacientes”, afirma.

A aposta da inteligência artificial

No Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), pesquisadores utilizaram inteligência artificial (IA) para desenvolver dois novos antibióticos inéditos, eficazes contra a gonorreia resistente — uma infecção sexualmente transmissível que já não responde a diversos tratamentos — e contra o MRSA.

“O uso da inteligência artificial representa uma mudança de paradigma. Antes, levava anos para que uma molécula fosse identificada e testada. Agora, esse processo pode ser reduzido a semanas. Isso abre a possibilidade de uma nova geração de antibióticos em um tempo muito mais curto”, comenta Appel.

Por que prescrever menos não é suficiente?

Um terceiro estudo, conduzido pela Universidade de Bath, trouxe outro alerta: apenas reduzir a quantidade de antibióticos prescritos não basta para conter o problema. Isso porque os chamados “genes de resistência” — informações genéticas que permitem às bactérias se tornarem imunes aos medicamentos — continuam circulando no meio ambiente, especialmente em águas residuais e solos contaminados.

Appel reforça que esse achado mostra a complexidade do problema. “Não adianta apenas diminuir o consumo humano de antibióticos. É preciso pensar em saúde de forma integrada, olhando também para o uso desses medicamentos na criação de animais e para os impactos ambientais. É necessário reconhecer que a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas”, explica.

Informação como parte da solução

Se novas descobertas científicas mostram caminhos promissores, a conscientização da população continua sendo um dos pontos centrais do enfrentamento à resistência. Para Appel, a comunicação em saúde precisa traduzir dados complexos em orientações claras.

“Superbactérias não são um tema restrito a laboratórios ou hospitais. É um problema de todos. A forma como cada pessoa utiliza antibióticos tem impacto direto nesse cenário. Por isso, informar de maneira acessível, sem alarmismo, é parte fundamental da solução”, conclui.

Referências

ONU. Mortes por resistência antimicrobiana podem subir em 10 milhões até 2050. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2023/02/1809317. Acesso em: 28/11/2025.

The Conversation. AI has produced 2 new antibiotics to kill ‘superbugs’. It’s promising – but we shouldn’t get too excited yet. Disponível em: https://theconversation.com/ai-has-produced-2-new-antibiotics-to-kill-superbugs-its-promising-but-we-shouldnt-get-too-excited-yet-263327. Acesso em: 28/11/2025.

Esra Malkawi, Anish Parmar, Sanjit Das, Enas Newire, Charlotte M. Jones, Kate A. Morrison, Milandip Karak, Frédéric Blanc, Nicholas Harper, Rajamani Lakshminarayanan, Zhi Sheng Poh, Navin K. Verma, Jennifer Unsworth, Dallas E. Hughes, Losee Lucy Ling, Stephen A. Cochrane, William Hope, and Ishwar Singh. Journal of Medicinal Chemistry 2025 68 (18), 19143-19152. DOI: 10.1021/acs.jmedchem.5c01193.

Xu L, Ceolotto N, Jagadeesan K, Standerwick R, Robertson M, Barden R, Lambert H, Kasprzyk-Hordern B. Building bridges to operationalize One Health – A longitudinal two years’ AMR study in England using clinical and wastewater-based surveillance approaches. J Glob Antimicrob Resist. 2025 Jun;43:256-263. doi: 10.1016/j.jgar.2025.05.005. Epub 2025 May 12. PMID: 40368163.

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