Cuidar da saúde é um ato de responsabilidade e autoconhecimento. No entanto, quando o assunto é o público masculino, ainda existe um longo caminho a ser percorrido. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024), os homens vivem, em média, 5,8 anos a menos que as mulheres no Brasil.
Parte dessa diferença está associada à baixa procura por atendimento médico e à negligência com hábitos preventivos. Dados da Fiocruz (2023) mostram que 71% dos homens só procuram um médico quando os sintomas já são graves, o que favorece diagnósticos tardios e aumenta o risco de complicações.
De acordo com o DATASUS (2024), as principais causas de morte entre os homens brasileiros são as doenças cardiovasculares (27%), os cânceres (18%) e as causas externas, como violência e acidentes (14%).
Esses números reforçam a importância de falar sobre a saúde do homem de forma integral — abordando corpo, mente e hábitos cotidianos — e não apenas restringindo o tema ao câncer de próstata. A campanha Novembro Azul, criada com foco nesse câncer, hoje simboliza um movimento mais amplo pela prevenção e pelo autocuidado masculino.
O que é saúde do homem e por que ela merece atenção
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social — e não apenas ausência de doença”. Essa definição serve de base para compreender que o cuidado masculino deve abranger não apenas doenças específicas, mas também fatores emocionais e comportamentais que afetam a qualidade de vida.
No Brasil, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), lançada em 2009 e atualizada em 2022, reforça esse conceito ao priorizar acesso, integralidade e prevenção. O documento destaca a importância da atenção primária — ou seja, o acompanhamento contínuo com médicos de família e equipes de saúde — e também a inclusão da saúde mental na rotina de cuidados.
Comportamentos como alcoolismo, tabagismo, má alimentação e baixa adesão a exames preventivos continuam sendo os maiores inimigos da saúde masculina, segundo o Ministério da Saúde (2023). Assim, entender o próprio corpo, reconhecer sinais de alerta e cultivar hábitos saudáveis são passos essenciais para mudar essa realidade.
Principais desafios que afetam a saúde masculina
A resistência dos homens em procurar ajuda médica é um problema histórico. A pesquisa Vigitel (2024) aponta que apenas 26% dos homens entre 20 e 59 anos realizam exames preventivos anuais. Entre as justificativas mais comuns estão a falta de tempo, o medo do diagnóstico e o constrangimento durante consultas.
Um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (2024) mostrou que 41% dos homens evitam o médico por vergonha ou por acreditarem que não precisam de acompanhamento. Esse comportamento acaba resultando em diagnósticos tardios de doenças potencialmente tratáveis, como o câncer e a hipertensão.
Superar esses desafios exige educação em saúde e uma mudança cultural que desassocie o autocuidado da ideia de fragilidade. Cuidar-se é uma forma de garantir longevidade e qualidade de vida.
Doenças mais comuns entre os homens

Entre as doenças que mais afetam a saúde masculina, algumas merecem atenção especial devido à sua prevalência e gravidade.
Câncer de próstata
É o tipo de câncer mais frequente entre os homens brasileiros, com estimativa de 72 mil novos casos por ano até 2025, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA).
A doença costuma evoluir silenciosamente, sem sintomas perceptíveis nas fases iniciais. Quando aparecem, podem incluir dificuldade para urinar, jato fraco e dor pélvica. Fatores de risco incluem idade acima de 45 anos, histórico familiar e obesidade. O rastreamento com PSA e o toque retal continuam sendo fundamentais para o diagnóstico precoce.
Doenças cardiovasculares
São responsáveis por cerca de 350 mil mortes masculinas por ano (Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2024). Pressão alta, sedentarismo, tabagismo e má alimentação são fatores determinantes. O infarto e o AVC continuam entre as principais causas de internação e morte evitável.
Diabetes tipo 2 e dislipidemias
Afetam aproximadamente 20% dos homens acima dos 40 anos (Vigitel, 2024). O acúmulo de gordura abdominal, o consumo excessivo de açúcar e o sedentarismo favorecem o surgimento dessas condições, que estão diretamente ligadas ao risco cardiovascular.
Doenças hepáticas
A esteatose hepática e a cirrose estão associadas ao consumo de álcool e à obesidade, e atingem mais de 60% dos casos diagnosticados em homens (Hepatology Journal, 2023). Muitas vezes, evoluem sem sintomas, sendo detectadas apenas em exames de imagem.
Os transtornos mentais afetam homens e mulheres, mas os homens apresentam maior resistência em buscar ajuda.
A taxa de suicídio entre eles é 3,7 vezes maior, especialmente na faixa de 30 a 59 anos, responsável por 75% dos óbitos (Ministério da Saúde, 2024). Esse dado evidencia a importância do acolhimento emocional e da quebra de estigmas relacionados à saúde mental.
A importância da prevenção e dos exames de rotina

A prevenção continua sendo o caminho mais eficaz para reduzir a mortalidade e melhorar a qualidade de vida dos homens. Consultas médicas regulares permitem identificar alterações em estágios iniciais, quando o tratamento é mais eficaz e menos invasivo.
Exames recomendados:
- A partir dos 40 anos: glicemia, perfil lipídico, função hepática e PSA (em homens com histórico familiar).
- A partir dos 50 anos: rastreamento regular para câncer de próstata, com PSA e toque retal.
Além dos exames laboratoriais, é fundamental manter o calendário vacinal atualizado, incluindo as vacinas contra HPV (até 45 anos), hepatites A e B, influenza anual, COVID-19 e tétano a cada 10 anos.
O médico de família deve ser o ponto inicial do acompanhamento, garantindo continuidade do cuidado e orientações individualizadas.
Como manter a saúde do homem em dia
Pequenas mudanças de hábito podem transformar a saúde masculina. A Organização Mundial da Saúde (2024) recomenda entre 150 e 300 minutos de atividade física por semana, incluindo exercícios aeróbicos e de força. Além de ajudar no controle do peso, o movimento regular melhora o humor, a circulação e a função cardíaca.
A alimentação também desempenha papel crucial. Priorizar frutas, verduras, legumes, grãos integrais e proteínas magras, enquanto se reduz o consumo de gordura saturada, álcool, sódio e alimentos ultraprocessados, é uma das estratégias mais eficazes para prevenir doenças metabólicas e cardiovasculares.
O sono é outro aliado da saúde masculina: dormir de 7 a 8 horas por noite auxilia na regulação da testosterona, no metabolismo e na imunidade.
Por fim, é essencial cuidar da saúde mental, reservando tempo para lazer, vínculos afetivos e, quando necessário, acompanhamento psicológico. Cessar o tabagismo e reduzir o consumo de álcool são decisões que impactam diretamente a longevidade e o bem-estar.
Envelhecer com qualidade: o papel da prevenção contínua
O envelhecimento saudável vai além de simplesmente viver mais anos — trata-se de viver com autonomia, mobilidade e lucidez. A reposição hormonal pode ser indicada em alguns casos, mas deve ser feita somente sob supervisão médica, pois o uso indiscriminado pode aumentar riscos cardiovasculares e prostáticos.
De acordo com The Lancet Healthy Longevity (2023), manter vínculos sociais e propósito de vida está associado a menor declínio cognitivo e menor risco de depressão em idosos. O segredo é adotar uma rotina de autocuidado desde cedo — a saúde do homem se constrói todos os dias, com informação, prevenção e atitudes conscientes.
Referências
Ministério da Saúde. Saúde do Homem. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-do-homem. Acesso em: 28/11/2025.
Instituto Nacional de Câncer. INCA estima 704 mil casos de câncer por ano no Brasil até 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/noticias/2022/inca-estima-704-mil-casos-de-cancer-por-ano-no-brasil-ate-2025. Acesso em: 28/11/2025.
Instituto Nacional de Câncer. Estimativa. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa. Acesso em: 28/11/2025.
Ministério da Saúde. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico 2023. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_2023.pdf. Acesso em: 28/11/2025.
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