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Ultraprocessados: o que há de novo na ciência em 2025

A alimentação mundial mudou rapidamente, e os ultraprocessados se tornaram parte central dessa transformação. Em 2025, The Lancet publicou a Series on Ultra-Processed Foods and Human Health, o trabalho mais abrangente já reunido sobre o tema. Os autores analisaram dezenas de estudos prospectivos, meta-análises e dados globais de vendas para responder a uma pergunta essencial: por que o padrão alimentar baseado em ultraprocessados está tão ligado ao aumento de doenças crônicas?

O conjunto de evidências é consistente. Em países como Estados Unidos e Reino Unido, os ultraprocessados representam mais de metade da energia consumida. Em nações de baixa e média renda, as vendas crescem em ritmo acelerado, substituindo alimentos tradicionais e remodelando hábitos alimentares inteiros. Embora grande parte dos estudos seja observacional, a convergência dos resultados, somada aos mecanismos biológicos bem descritos, fortalece o entendimento de que os ultraprocessados têm papel central na epidemia de doenças crônicas em escala global.

Antes de avançar para as novas evidências e recomendações, vale esclarecer como o próprio trabalho define o que é um ultraprocessado — base fundamental de todas as conclusões.

O que são ultraprocessados segundo a classificação NOVA

A classificação NOVA organiza alimentos conforme o grau e o propósito do processamento. No grupo 4, estão os ultraprocessados: formulações industriais de ingredientes extraídos ou modificados, como amidos, farinhas refinadas, óleos hidrogenados e isolados proteicos, combinados a aditivos que alteram sabor, textura, cor e aroma. Esses produtos contêm pouco ou nenhum alimento integral.

Como destacam Monteiro e colaboradores, o ultraprocessamento inaugura uma lógica diferente dentro do sistema alimentar. O objetivo não é mais preservar alimentos, mas criar substitutos altamente lucrativos para refeições e práticas culinárias tradicionais, deslocando alimentos in natura e minimamente processados das dietas cotidianas.

Essa mudança explica por que o debate atual extrapola o teor de nutrientes. Mesmo produtos com alegações “zero”, “light” ou “fit” permanecem ultraprocessados. A engenharia sensorial favorece consumo rápido e elevado; a ruptura da matriz alimentar reduz saciedade; e a presença de aditivos e contaminantes de embalagens — como BPA e PFAS — afeta processos metabólicos e hormonais. Esses fatores convergem para elevar risco cardiometabólico, inflamatório e comportamental.

O que dizem os três artigos da The Lancet Series sobre UPFs

Os três artigos da Série se complementam, abordando respectivamente os efeitos dos ultraprocessados na saúde, as políticas necessárias para reduzir sua presença e o papel da indústria na expansão global desses produtos.

No primeiro artigo, os autores revisam três hipóteses: o deslocamento de padrões alimentares tradicionais, a piora da qualidade da dieta e o aumento do risco de doenças crônicas. A grande maioria dos estudos prospectivos analisados mostra associação positiva entre maior consumo de ultraprocessados e obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, doenças cardiovasculares, depressão, mortalidade geral, doença renal e condições inflamatórias intestinais. As meta-análises reforçam a ideia de que os UPFs formam um padrão alimentar de risco sistêmico, associado a múltiplas vias metabólicas e inflamatórias .

O segundo artigo afirma que intervenções focadas apenas no indivíduo são insuficientes. Reformulações nutricionais, embora úteis em alguns casos, não resolvem o problema estrutural. Os autores defendem políticas que considerem as características dos ultraprocessados enquanto categoria: rótulos de advertência, restrições de publicidade infantil, ambiente escolar saudável, taxação diferenciada e compras públicas baseadas em alimentos in natura. Na prática, isso aparece em experiências concretas de países que adotaram pacotes integrados de medidas, como Chile, México e Brasil. O Chile, por exemplo, combinou advertências frontais, controle de marketing e restrições em escolas com resultados expressivos. O Brasil avançou ao estabelecer metas para que o Programa Nacional de Alimentação Escolar priorize alimentos in natura até 2026.

O terceiro artigo analisa os determinantes comerciais. Mostra como corporações globais estruturaram cadeias produtivas e estratégias de marketing que favorecem a expansão dos ultraprocessados, especialmente em países onde o mercado ainda estava em formação. Um dado chama atenção: mais de 50% dos quase US$ 3 trilhões distribuídos em dividendos por empresas do setor alimentício entre 1962 e 2021 veio de fabricantes de ultraprocessados, demonstrando onde se concentra o poder econômico e político desse setor.

Principais riscos à saúde associados ao consumo de UPFs

Os mecanismos que explicam os riscos associados aos ultraprocessados são diversos e atuam de forma complementar. A hiperpalatabilidade induzida por açúcares, gorduras refinadas e aromatizantes favorece o consumo rápido e elevado. A baixa densidade nutricional reduz a oferta de fibras, vitaminas e fitoquímicos essenciais. Aditivos como emulsificantes favorecem inflamação intestinal e alteram a microbiota. Compostos químicos liberados por embalagens — como BPA e PFAS — afetam vias hormonais e metabólicas. Somados, esses fatores contribuem para acúmulo de gordura visceral, resistência à insulina, aumento da inflamação sistêmica e maior risco cardiovascular.

Como o consumo de UPFs está mudando padrões alimentares no mundo

Os dados globais mostram um crescimento expressivo das vendas de ultraprocessados entre 2007 e 2022, especialmente em países de baixa e média renda. Em vários contextos, esse aumento ultrapassa 40% no período, acompanhando urbanização, industrialização da alimentação e presença agressiva de grandes empresas do setor. Nos países de alta renda, o consumo se estabilizou em patamares elevados, ultrapassando metade da energia consumida.

Essa transição nutricional não altera apenas indicadores de saúde: modifica tradições culinárias, reduz autonomia alimentar e padroniza dietas em escala global.

As novas recomendações globais para conter o avanço dos UPFs

Os autores defendem políticas estruturais capazes de reduzir a presença de ultraprocessados nos ambientes alimentares. A criação de rótulos frontais de advertência tem mostrado impacto significativo em países que adotaram pacotes integrados de políticas. O efeito é ainda maior quando esses rótulos se combinam a proibições de publicidade infantil, compras públicas saudáveis e taxação de produtos ultraprocessados.

O texto também reforça a importância de limitar a interferência das corporações na formulação de políticas e fortalecer cadeias de produção baseadas em alimentos frescos. Exemplos latino-americanos oferecem lições concretas de como combinar regulação de mercado, educação alimentar e políticas fiscais para frear o avanço dos UPFs.

Impacto prático para profissionais de saúde

Para médicos e demais profissionais, a Série deixa claro que reduzir ultraprocessados melhora simultaneamente marcadores metabólicos, peso corporal, pressão arterial e inflamação. A orientação não deve recair sobre a culpabilização individual, mas considerar o ambiente em que o paciente vive. É fundamental propor mudanças progressivas, factíveis e culturalmente adequadas. Essas mensagens ganham força quando se traduzem em orientações simples e aplicáveis no dia a dia — tanto no consultório quanto nas comunicações públicas.

Orientações para o usuário: como diminuir a exposição a UPFs

Para o público geral, a transição pode começar por escolhas pequenas e consistentes. Observar a lista de ingredientes ajuda a identificar produtos ultraprocessados: listas longas, com nomes que não usamos na cozinha, geralmente indicam formulações industriais. Priorizar refeições simples — como arroz, feijão, ovos, legumes, frutas e carnes frescas — reduz a ingestão de aditivos e aumenta a oferta de fibras e micronutrientes. Trocas práticas, como substituir refrigerantes por água com gás ou chá, e snacks industrializados por frutas ou castanhas, facilitam o processo. É importante lembrar que escolhas alimentares acontecem dentro de um ambiente que favorece os ultraprocessados, e não apenas por vontade individual.

O trabalho publicado em 2025 consolida o conhecimento científico sobre os ultraprocessados e demonstra que seu impacto vai muito além de nutrientes isolados. Eles moldam sistemas alimentares, influenciam políticas públicas e afetam múltiplos aspectos da saúde humana. A resposta exige ações estruturais, práticas clínicas informadas e escolhas cotidianas possíveis. Em última análise, trata-se de recuperar o protagonismo da comida de verdade, com políticas que a tornem acessível e viável — e não apenas uma escolha individual idealizada.

Referências

The Lancet. Ultra-processed foods: time to put health before profit. Lancet. 2025 Nov 18:S0140-6736(25)02322-0. doi: 10.1016/S0140-6736(25)02322-0. Epub ahead of print. PMID: 41270770.

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Baker P, Slater S, White M, Wood B, Contreras A, Corvalán C, Gupta A, Hofman K, Kruger P, Laar A, Lawrence M, Mafuyeka M, Mialon M, Monteiro CA, Nanema S, Phulkerd S, Popkin BM, Serodio P, Shats K, Van Tulleken C, Nestle M, Barquera S. Towards unified global action on ultra-processed foods: understanding commercial determinants, countering corporate power, and mobilising a public health response. Lancet. 2025 Nov 18. doi: 10.1016/S0140-6736(25)01567-3.

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